Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
‘Neste momento Marta media o tempo e a solitude de sua vida de menina através de sua sensibilidade de adulta, a angústia se avolumando, engrossando como um grande rio de cinzas e lavas, porque só agora compreendia verdadeiramente quão temerário é viver, apreendendo o sentido dessa longa tessitura de palavras e gestos, de idas e vindas, de encontros frustrados e de esperas aparentemente inúteis, mas que se diriam necessários para fechar o círculo inalterado de cada um. - “Sem isso - pensou - ficariam como esboços inacabados, os movimentos como em pesadelo, iniciados, mas por uma absurda interferência cortados a meio, e contendo em si tamanha caudal de energia que, se fosse desencadeada de uma só vez, seria de consequências imprevisíveis.” ‘
em choque.
(via s-olitarium)